sexta-feira, 20 de março de 2026

Poema de vida inteira

 

Não me ofereças um poema

no dia da minha morte.

Não morro,

porque também não vivi.

Caminhei apenas em bermas de estradas,

procurando a sombra ou,

pelo menos,

lugares pouco iluminados.

Não quis ser muito vista,

nem conhecida, nem muito amada,

porque também não soube ver,

nem conhecer, nem amar,

como devia.

Nunca me disseram,

e eu também não descobri,

ou não fui aceitando,

que poderia existir uma Pedra Filosofal

e que viver, sonhando,

era, na verdade, viver.

Talvez numa curva longínqua, mas cheia

de sol,

eu tenha sonhado fugir dos subterrâneos.

E talvez tenha saído,

mas não da forma que me era essencial.

Daí, esta não-existência,

ou semi-existência,

este não saber, nunca,

se estou, porque devia,

ou se não devo, ou se não quero.

Os dias passam

todos

iguais a todos os dias.

Não sei se é cansaço,

ou seca rotina,

ou inútil angústia,

ou tudo junto,

mas sei que não pode viver,

nem vive,

quem sente o dever de viver.

Por isso,

é a sombra que me convém.

Não sou cor, nem luz, nem coisa

nenhuma.

Só quero ser cinzas, quando parar de existir.

Quero ficar aqui,

na casa onde morei,

raiz e seiva de flores que não verei

e, quem sabe, não terei.

Não quero lápide, nem memórias, nem

poemas,

nem amigos, que não tenho.

Não sou poeta, não faço hinos à paixão,

não sei viver poesia.

Houve tempos de amigos, de confiança,

e de brincar, e de vida.

E eu vivi, nesses tempos, não eu,

parece-me,

mas a outra, aquela

de quem se gostava naturalmente,

aquela que é lembrada,

e não esta sombra que se pisa e ignora,

amarga, dura e só.




BL




sábado, 28 de fevereiro de 2026

corpo-ferida

 




o amor é esta chama lenta
que nos atravessa
como se a pele fosse um campo antigo
onde a luz aprende a cair


tocas-me
e o mundo abre uma fenda
por onde o silêncio respira
até se tornar carne


há um tremor que nasce
no lugar onde o teu nome pousa
um rumor de água
que insiste em sobreviver
mesmo quando tudo seca


somos dois corpos feridos
que se reconhecem no escuro
como se a dor fosse bússola
e o desejo
uma forma de cura


e quando te encosto ao peito
sinto que o tempo se dobra
num gesto sem rosto
onde o amor
finalmente
se deixa sangrar





BL

28.02.26




sábado, 6 de dezembro de 2025

Corpo de areia corpo de neve

 



primavera  
dedos que não tocam  
areia que respira  

inverno  
mãos partidas  
raízes afogadas  

calor  
frio  
auroras  
ocaso  

chamas  
neve  
flores ausentes  

olhar suspenso  
vidro sem forma  
tempo que se dissolve




BL
06.12.25




quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Deste...

 




deste silêncio nasce a manhã 

deste chão brota a memória 

deste olhar cresce o caminho 

deste instante abre-se o mundo 






BL

03.12.25



 


sábado, 15 de novembro de 2025

Poema fragmentado

 






O candeeiro hesita
a luz não quer ferir
paredes tímidas
olhos sem fundo.

O sofá protesta
memória pesa
risos de verão
descalços perdidos.

Fotografias tortas
dentes de papel
testemunhas mudas
vida que não é minha.

A madeira fala
eu escuto
a casa respira
eu permaneço.

O portão geme
vento chama
folhas guardam passos
caminho nunca feito.

Eu fico
sempre fico
na dobra do tempo
lençóis esquecidos.

O silêncio denuncia
a casa sabe
as paredes sabem
o espelho trai.

Não há rosto
só sombra
talvez candeeiro
talvez eu.

Acolhido outrora
rejeitado agora
habito um eco
sou eco.




BL

15.11.25







sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Centelha na escuridão

 




Do silêncio nasce um abismo
onde o ser se interroga
e cada passo ecoa
como sombra que não se cala.

O tempo rasga a pele do instante
e revela o vazio que pulsa
um sopro de eternidade
que nunca se deixa tocar.

E no âmago da noite
[mesmo na escuridão mais densa]
há um clarão que insiste
em lembrar que somos finitude
mas também centelha.







BL
14.11.25





terça-feira, 11 de novembro de 2025

Na simplicidade das coisas

 





Escrevo-me no silêncio

como se cada verso fosse

a respiração lenta

de um dia frio.

 

Às vezes chama-me o sol

[chamamento de inverno]

como quem convida à contemplação

daquilo que é

sem adornos nem exigências.

 

Os braços nus das árvores sussurram

uma oração

como se fosse um trilho onde o silêncio

fala

 

e a beleza se revela

na simplicidade das coisas

em que o coração não tem medo de se mostrar.

 

 

 

 

BL

11.11.25







segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Quando o silêncio souber o nome das estrelas

 





Um dia

quando o tempo se dobrar sobre si mesmo
e os relógios forem apenas sombras no chão

hei de colher um sopro antigo
para acalmar os ventos do esquecimento.


Então
talvez compreenda os gestos que se perdem
nas margens da memória

e os olhos que choram
sem saber porquê.


Há coisas que morrem devagar
como a luz nas mãos de um cego
ou o voo que nunca chegou a ser
de um pássaro sonhado.




BL

27.10.25







domingo, 12 de outubro de 2025

Onde estás?

 


telhados
gente que passa
tu

 

passos entre pedras
longe
mas vejo-te

 

fico
suspensa

 

um toque no ombro
se vieres
levitamos

 

o fim
é só o começo
da rua





BL

12.10.25







terça-feira, 30 de setembro de 2025

Partículas em órbita

 



Somos o rasto do que não se toca,
linhas paralelas com sede de curva,
um sopro que roça a pele do instante
sem nunca se deter.


Milímetros separam-nos,
mas é o tempo que nos empurra —
esse tempo sem eixo,
sem repouso, sem fim.


Tu és o vento que quase me encontra,
eu sou a pedra que quase se move.
E no quase, somos tudo:
possibilidade, vertigem,
o mapa de um mundo que não se fecha.


Se um dia colidirmos,
seremos poeira de estrelas,
não mais gesto,
mas memória do gesto.


O nosso lugar é o entre,
o intervalo,
o silêncio entre dois astros em fuga.





BL

30.09.25








sábado, 16 de agosto de 2025

Velas

 





Há memórias que nunca se acendem.
Velas esquecidas num canto.
Outras ardem baixinho
em poças de água
onde o céu se afoga
em silêncio.





BL

16.08.25






terça-feira, 12 de agosto de 2025

Claridade de dentro

 





A saudade
com sabor a terra molhada
secava devagar
como pedra que chora o seu musgo
resistindo ao calor da manhã.
 
O vento tocava as folhas com ternura
e a saudade

aquela saudade enterrada na pele
abria os olhos à luz.
 
Havia claridade
feita de sombra fina
de raízes que brilham por dentro
quando o tempo as chama.
 
No sabor da terra molhada
ficavam restos de passos
e promessas germinadas

como se a ausência florescesse.





BL
12.08.25





quarta-feira, 6 de agosto de 2025

A quem já pisou este chão

 




Ainda andas por aí?


Hoje

passaram passos leves

mas nenhum sabia o teu nome.

 

Deixaste um traço numa pedra

no outro dia.


Pensei que eras tu.

Era só sombra.

Mas esperei

mesmo assim.

 

Continuo a escrever.


Continuo a amar-te

como se a árvore fosse a nossa casa comum.


Se me tocares no ombro

reconhecerei o peso exato da tua saudade.




BL

06.08.25





terça-feira, 5 de agosto de 2025

Rio de ecos

 

 



Desenho em traços sem nexo

um jardim de afetos

que em prosas e versos

e em esquinas perdidas

me incendeia as veias.

 

Em mim flui ainda

um rio

que em morosos movimentos

se solta de cais e amarras

e se dispersa por folhas brancas

onde acendo velas

e suspendo boias

visíveis nas vidraças das janelas.

 

Enegrece o azul

num tempo de imagens e de enigmas

que se refletem em espelhos

presos na moldura de nuvens

onde o horizonte sombreia.

 

E eu

sentada em degraus de pedra

desdobro a vida que passa num leito de ecos

pela noite branca.




BL

20.07.2010





Ser aparência

 


Fica-me a aparência de ser,

imagem

do que não sinto,

do que não sei.

 

Experiência de uma vida

entre ausências

repartida,

esquecida.

 

Despeço-me

de mim,

sem que me tenha encontrado,

culpada

do que não fiz,

do que não procurei.

 

Pedaços

de sonho,

de ilusão.

 

O que me fará correr?

Por que hei de sorrir?

 

B.L.

09.02.90








terça-feira, 24 de junho de 2025

O que a poesia também pode ser

 





Poesia é estar contigo,

é dar-te o beijo que não me pediste,

dizer-te as saudades que sinto,

a meio do dia.


É a flor 

que está para além das palavras,

o silêncio cúmplice

de um pôr do sol.


É cantar com os melros

e dançar com as cores

que pintam o meu jardim.


É o ritmo melódico

dos afetos,

a cadência harmoniosa da solidariedade.







BL
21.03.2006







sábado, 26 de abril de 2025

Colheitas de amor

 







“Mãe, fala-me de mim.

Gosto tanto que me fales de mim!...”

E foram lampejos

de risos

e de lágrimas.

Searas de ternura

em campos de areia e de neve.

Colheitas de amor

e saudade.

Doçura de rostos,

passinhos trémulos,

gestos sem norma.

“Porquê, Mãe?

Explica-me...”

Procuro a palavra,

a definição.

É preciso clarificar

a situação.

“Cuidado, mãe!

Não me deixes cair!

Nunca, mãe…”


B.L.

15.11.1989





domingo, 22 de agosto de 2021

A dor de um sonho ousado

 


Fere-me a certeza do imutável,

o fluir do quotidiano

sem certezas.

O medo de perder

o que ainda não obtive.


Dilui-se a força 

do querer,

o desejo

de acreditar.


Fica a dor

do sonho ousado,

do poente

em horizonte

avermelhado.


B. L.


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Entre tempos







Em mim se entrelaçam todas as melodias do mundo
na trajetória de uma brisa que ilude as solidões
no véu de luz que transporta.

Cerro os meus olhos para entender
os silêncios
matizando as cores
repartindo as verdades entre as minhas folhas
entre os meus frutos
acompanhando o azul e o sol que lhes moldam as estradas.

Gravo nas palavras a fragilidade dos instantes
os vidros quebrados tocados pelo vento
sem saber como se sai
desta inaptidão da alma
onde a chuva me açoita
e grita
e sucumbe
quando articula o meu nome.

Sento-me na orla do tempo
como quem sopra memórias em dentes-de-leão
e invoca dias claros
para desfolhar a recontagem dos silêncios.

domingo, 12 de julho de 2020

No silêncio que me digo








Digo-me do silêncio das árvores
de um céu pintado de frutos e de cores que não chegaram
a amanhecer


de navios carregados de monólogos surdos
cúmplices dos sonhos
e das esperanças
que em cinzas caíram a meus pés
sussurrando vozes perdidas no cais


de esboços e representações
memórias de súplicas
e de soluços
irónicas sedas nos meus areais.


E no silêncio que me digo entendo
a interdita agonia das pétalas
e dos corais


a indefinível distância dos recantos
onde nasci onde morri
e hoje sou
um quase tudo
um quase nada
dentro de mim.




20.12.10