primavera
dedos que não tocam
areia que respira
inverno
mãos partidas
raízes afogadas
calor
frio
auroras
ocaso
chamas
neve
flores ausentes
olhar suspenso
vidro sem forma
tempo que se dissolve
BL06.12.25
primavera
dedos que não tocam
areia que respira
inverno
mãos partidas
raízes afogadas
calor
frio
auroras
ocaso
chamas
neve
flores ausentes
olhar suspenso
vidro sem forma
tempo que se dissolve
BL06.12.25
deste silêncio
nasce a manhã
deste chão
brota a memória
deste olhar
cresce o caminho
deste instante abre-se o mundo
BL
03.12.25
O candeeiro hesita
a luz não quer ferir
paredes tímidas
olhos sem fundo.
O sofá protesta
memória pesa
risos de verão
descalços perdidos.
Fotografias tortas
dentes de papel
testemunhas mudas
vida que não é minha.
A madeira fala
eu escuto
a casa respira
eu permaneço.
O portão geme
vento chama
folhas guardam passos
caminho nunca feito.
Eu fico
sempre fico
na dobra do tempo
lençóis esquecidos.
O silêncio denuncia
a casa sabe
as paredes sabem
o espelho trai.
Não há rosto
só sombra
talvez candeeiro
talvez eu.
Acolhido outrora
rejeitado agora
habito um eco
sou eco.
BL
15.11.25
Do silêncio nasce um abismo
onde o ser se interroga
e cada passo ecoa
como sombra que não se cala.
O tempo rasga a pele do
instante
e revela o vazio que pulsa
um sopro de eternidade
que nunca se deixa tocar.
Escrevo-me no silêncio
como se cada verso fosse
a respiração lenta
de um dia frio.
Às vezes chama-me o sol
[chamamento de inverno]
como quem convida à contemplação
daquilo que é
sem adornos nem exigências.
Os braços nus das árvores sussurram
uma oração
como se fosse um trilho onde o silêncio
fala
e a beleza se revela
na simplicidade das coisas
em que o coração não tem medo de se mostrar.
BL
11.11.25
Um dia
quando o tempo se dobrar sobre si mesmo
e os relógios forem apenas sombras no chão
hei de colher um sopro antigo
para acalmar os ventos do esquecimento.
Então
talvez compreenda os gestos que se perdem
nas margens da memória
e os olhos que choram
sem saber porquê.
Há coisas que morrem devagar
como a luz nas mãos de um cego
ou o voo que nunca chegou a ser
de um pássaro sonhado.
BL
27.10.25
telhados
gente que passa
tu
passos entre pedras
longe
mas vejo-te
fico
suspensa
um toque no ombro
se vieres
levitamos
o fim
é só o começo
da rua
BL
12.10.25