quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Deste...

 




deste silêncio nasce a manhã 

deste chão brota a memória 

deste olhar cresce o caminho 

deste instante abre-se o mundo 






BL

03.12.25



 


sábado, 15 de novembro de 2025

Poema fragmentado

 






O candeeiro hesita
a luz não quer ferir
paredes tímidas
olhos sem fundo.

O sofá protesta
memória pesa
risos de verão
descalços perdidos.

Fotografias tortas
dentes de papel
testemunhas mudas
vida que não é minha.

A madeira fala
eu escuto
a casa respira
eu permaneço.

O portão geme
vento chama
folhas guardam passos
caminho nunca feito.

Eu fico
sempre fico
na dobra do tempo
lençóis esquecidos.

O silêncio denuncia
a casa sabe
as paredes sabem
o espelho trai.

Não há rosto
só sombra
talvez candeeiro
talvez eu.

Acolhido outrora
rejeitado agora
habito um eco
sou eco.




BL

15.11.25







sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Centelha na escuridão

 




Do silêncio nasce um abismo
onde o ser se interroga
e cada passo ecoa
como sombra que não se cala.

O tempo rasga a pele do instante
e revela o vazio que pulsa
um sopro de eternidade
que nunca se deixa tocar.

E no âmago da noite
[mesmo na escuridão mais densa]
há um clarão que insiste
em lembrar que somos finitude
mas também centelha.







BL
14.11.25





terça-feira, 11 de novembro de 2025

Na simplicidade das coisas

 





Escrevo-me no silêncio

como se cada verso fosse

a respiração lenta

de um dia frio.

 

Às vezes chama-me o sol

[chamamento de inverno]

como quem convida à contemplação

daquilo que é

sem adornos nem exigências.

 

Os braços nus das árvores sussurram

uma oração

como se fosse um trilho onde o silêncio

fala

 

e a beleza se revela

na simplicidade das coisas

em que o coração não tem medo de se mostrar.

 

 

 

 

BL

11.11.25







segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Quando o silêncio souber o nome das estrelas

 





Um dia

quando o tempo se dobrar sobre si mesmo
e os relógios forem apenas sombras no chão

hei de colher um sopro antigo
para acalmar os ventos do esquecimento.


Então
talvez compreenda os gestos que se perdem
nas margens da memória

e os olhos que choram
sem saber porquê.


Há coisas que morrem devagar
como a luz nas mãos de um cego
ou o voo que nunca chegou a ser
de um pássaro sonhado.




BL

27.10.25







domingo, 12 de outubro de 2025

Onde estás?

 


telhados
gente que passa
tu

 

passos entre pedras
longe
mas vejo-te

 

fico
suspensa

 

um toque no ombro
se vieres
levitamos

 

o fim
é só o começo
da rua





BL

12.10.25







terça-feira, 30 de setembro de 2025

Partículas em órbita

 



Somos o rasto do que não se toca,
linhas paralelas com sede de curva,
um sopro que roça a pele do instante
sem nunca se deter.


Milímetros separam-nos,
mas é o tempo que nos empurra —
esse tempo sem eixo,
sem repouso, sem fim.


Tu és o vento que quase me encontra,
eu sou a pedra que quase se move.
E no quase, somos tudo:
possibilidade, vertigem,
o mapa de um mundo que não se fecha.


Se um dia colidirmos,
seremos poeira de estrelas,
não mais gesto,
mas memória do gesto.


O nosso lugar é o entre,
o intervalo,
o silêncio entre dois astros em fuga.





BL

30.09.25